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O gráfico com a evolução das receitas e das pendências do tricolor de Salvador na última década.

Para 2020, o Bahia havia estimado um orçamento de R$ 179,0 milhões, o maior já visto no Nordeste. Entretanto, com a pandemia, a estrutura financeira do clube sofreu um golpe duríssimo, mesmo considerando a organização administrativa nos últimos anos. A receita bruta acabou ficando em R$ 130,6 milhões, com -27% sobre a projeção ou, de forma prática, com -31% sobre a receita bruta anterior, de R$ 189,4 mi.

Apesar da curva acentuada para baixo, seguiu como a maior receita no futebol da região, mas não o suficiente para bancar o que a direção de Guilherme Bellintani havia planejado. Não mesmo. O impacto negativo era esperado, a partir da paralisação das atividades durante quatro meses e de cenários posteriores, como o encolhimento do mercado e os jogos sem público na Fonte Nova e em Pituaçu. Para amenizá-lo, foi traçado um plano que incluía a “renegociação de todos os tipos de contratos firmados pelo clube”, conforme diz o parecer do demonstrativo contábil, auditado pela BDO.

Mesmo com cortes, as despesas continuaram elevadas, quase no padrão pré-pandemia. Assim, o clube acabou registrando um déficit de R$ 50,6 milhões. Acompanho as contas do tricolor há pelo menos dez anos e o maior dado negativo numa temporada, até então, era de R$ 18,5 mi, lá em 2011, antes do processo de democratização. Embora o presidente tricolor tenha adiantado o cenário há meses, a realidade posta chama a atenção. Há um atenuante para este resultado, mas com o saldo negativo sendo recorde de toda forma.

Vamos lá. O balanço financeiro anual, uma exigência da lei, contabiliza as receitas e despesas da instituição de 1º de janeiro a 31 de dezembro. Como se sabe, o Brasileirão de 2020 só acabou em 25 de fevereiro, com o Baêa em 14º lugar, obtendo a vaga na Sula. Mesmo valendo pela temporada “2020”, os dados neste período só serão contabilizados no balanço referente a “2021”. Na apresentação numa reunião online com o Conselho Deliberativo, em 19/04, o Executivo também citou o quadro estendido, “2020/2021”, até o fim de fevereiro.

Neste caso, o Bahia ainda teria R$ 32,2 milhões de receita bruta, sendo R$ 26,6 mi da TV, entre repasses e premiações – por este motivo, contraiu R$ 15 milhões em empréstimos até dezembro. Como a despesa “pós-réveillon” foi relativamente baixa, de R$ 2,9 mi, o saldo no período foi positivo, de R$ 25,3 milhões. Ou seja, de janeiro de 2020 até fevereiro de 2021, com 14 meses na temporada de “2020”, o tricolor teve uma receita de R$ 162,8 milhões, com um déficit de R$ 25,3 milhões. Portanto, metade do dado oficial, de 12 meses, aquele que acaba sendo analisado (e comparado) com o histórico do próprio clube e de outros clubes.

O gasto preciso com o futebol
Ao todo, o Bahia gastou R$ 73,5 milhões com a folha de pagamento, incluindo o futebol profissional e outros departamentos. Isso correspondeu a 56,2% de todo o faturamento. Deste montante, os principais destinos na divisão foram: 68,8% com o time profissional e a comissão técnica (50,6 mi), 10,3% com o estafe do futebol profissional (7,5 mi) e 5,8% com o time Sub 23, que disputou o Campeonato Baiano (4,2 mi). A partir deste dado absoluto no futebol, fazendo uma divisão por “13,3”, incluindo o 13º salário e o adicional de 30% nas férias, a média salarial do elenco principal do Bahia foi de R$ 3,8 milhões. Considerando o desempenho em campo, um dado bem elevado.

O maior passivo do Nordeste
Pela primeira vez, o passivo de um clube do NE superou a cara de R$ 300 milhões. No Bahia, a soma dos passivos circulante, com pendências de curto prazo, e não circulante, com pendências acima de doze meses, resultou R$ 313,6 mi. Considerando a análise do blog sobre os balanços dos principais clubes do NE, o maior dado até hoje pertencia ao Náutico, com R$ 284,5 mi em 2018. A “liderança”, pesadíssima, considera apenas o cenário absoluto, e não a capacidade de receita de cada um – e haja diferença. Embora utilize aqui o passivo como critério, numa soma de obrigações (contratos firmados com jogadores, por exemplo) e dívidas (atrasos de pagamentos, por exemplo), vale destacar que a apresentação do Bahia trouxe o “endividamento líquido”. Naturalmente, é um dado menor, mas segue puxado: R$ 255 milhões, ou quase duas vezes a última receita. A dívida subiu R$ 45 mi em um ano. Segundo o relatório, 70% deste total está equacionado em longo prazo, sobretudo no Profut, o programa de renegociação tributária, com R$ 129 milhões – menos mal.

A “reclassificação” das receitas
Há um processo de padronização dos balanços, com modelos indicados pela CBF. Neste tema, algo bem importante é a classificação correta das receitas. Pode parecer óbvio, mas a “premiação” de um torneio entra como receita de TV ou como renda de jogo? E as luvas dos contratos de TV, entram em que momento? Neste caso, o Bahia tinha R$ 40 milhões do Esporte Interativo, contabilizados em 2016. Contudo, o dinheiro passou a fazer parte do balanço só a partir de 2019, com início do acordo de transmissão. Assim, a receita total de 2016 caiu de R$ 129 mi para R$ 80 mi!

Abaixo, um comparativo sobre quatro frentes importantes para a composição da receita no futebol profissional, presentes nos últimos quatro balanços do Bahia, todos na 1ª divisão.

Direitos de transmissão na TV
2017 (A) – R$ 63.643.000
2018 (A) – R$ 75.399.000 (+18,4%; +11,75 mi)
2019 (A) – R$ 80.541.000 (+6,8%; +5,14 mi)
2020 (A) – R$ 53.737.000 (-33,2%; 26,80 mi)

Quadro de sócios-torcedores
2017 (A) – R$ 6.525.000
2018 (A) – R$ 9.275.000 (+42,1%; +2,75 mi)
2019 (A) – R$ 19.340.000 (+108,5%; +10,06 mi)
2020 (A) – R$ 29.516.000 (+52,6%; +10,17 mi)*
* Mesmo com o quadro adimplente caindo de 35 mil para 21 mil entre janeiro e dezembro.

Renda nos jogos*
2017 (A) – R$ 15.801.000
2018 (A) – R$ 20.743.000 (+31,2%; +4,94 mi)
2019 (A) – R$ 17.014.000 (-17,9%; -3,72 mi)
2020 (A) – R$ 4.856.000 (-71,4%; -12,15 mi)

Patrocínio/Marketing
2017 (A) – R$ 12.909.000
2018 (A) – R$ 9.508.000 (-26,3%; -3,40 mi)
2019 (A) – R$ 15.562.000 (+63,6%; +6,05 mi)
2020 (A) – R$ 10.171.000 (-34,6%; -5,39 mi)

A seguir, o histórico de receitas do Bahia na década recém-encerrada, com um salto nominal de R$ 152 milhões de entre o menor ano (2011) e o maior (2019) – foram firmados três acordos com a TV neste recorte, em 2012, 2016 e 2018. O clube passou de R$ 100 milhões de receita nos últimos quatro anos – seriam cinco, mas houve a reclassificação em 2016. Em 2021 o clube disputará a Série A pela 5ª vez seguida, com a chance reduzir o impacto de 2020.

Faturamento anual do clube (receita total)
2011 (A) – R$ 36.883.000
2012 (A) – R$ 66.641.000 (+80,6%; +29,75 mi)
2013 (A) – R$ 74.403.266 (+11,6%; +7,76 mi)
2014 (A) – R$ 75.780.000 (+1,8%; +1,37 mi)
2015 (B) – R$ 89.329.000 (+17,8%; +13,54 mi)
2016 (B) – R$ 80.709.000 (-9,6%; -8,62 mi)
2017 (A) – R$ 104.897.000 (+29,9%; +24,18 mi)
2018 (A) – R$ 136.107.000 (+29,7%; +31,21 mi)
2019 (A) – R$ 189.485.000 (+39,2%; +53,37 mi)
2020 (A) – R$ 130.619.000 (-31,0%; -58,86)

Resultado do exercício (superávit/déficit)*
2011 (A): -18.564.000
2012 (A): -3.067.000
2013 (A): -6.703.040
2014 (A): -13.689.000
2015 (B): +34.154.000
2016 (B): -16.190.000
2017 (A): -8.692.000
2018 (A): +4.481.000
2019 (A): +3.881.000
2020 (A): -50.641.000
* O saldo da subtração da receita líquida pela despesa anual

Evolução do passivo acumulado do clube (circulante + não circulante)
2011 (A) – R$ 123.365.000
2012 (A) – R$ 156.577.000 (+26,9%; +33,21 mi)
2013 (A) – R$ 185.172.000 (+18,2%; +28,59 mi)
2014 (A) – R$ 255.538.000 (+38,0%; +70,36 mi)
2015 (B) – R$ 209.568.000 (-17,9%; -45,97 mi)
2015 (B) – R$ 216.541.000 (-15,2%; -38,99 mi)
2016 (B) – R$ 214.349.000 (-1,0%; -2,19 mi)
2017 (A) – R$ 195.188.000 (-8,9%; -19,16 mi)
2018 (A) – R$ 234.442.000 (+20,1%; +39,25 mi)
2019 (A) – R$ 266.012.000 (+13,4%; +31,57 mi)
2020 (A) – R$ 313.656.000 (+17,9%; +47,64 mi)

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