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O gráfico com a evolução das receitas e pendências do tricolor cearense nos últimos 7 anos.

Em 2019, o Fortaleza registrou o maior superávit de sua história, com as receitas superando as despesas em R$ 3,4 milhões, a partir do faturamento recorde no CE. Em 2020, dando sequência ao trabalho, a perspectiva seguia positiva, mas veio a pandemia da Covid-19. E a receita total estimada em R$ 109 mi despencou para R$ 86 milhões, gerando um déficit de R$ 9,7 milhões, de longe o maior que já vi neste acompanhamento do clube.

Com os quatro meses sem atividade no futebol e com a volta dos jogos num país em crise, o cenário difícil era esperado. A bilheteria no Castelão, por exemplo, caiu de R$ 11,8 mi para R$ 2,0 mi. E olhe que esse dado ainda pode ser considerado “bom”, pois inclui a renda contra o Independiente, pela Sul-Americana, com R$ 1,3 milhão – foram 52 mil pagantes, sendo este o último borderô milionário na região. Neste segmento, o rival arrecadou apenas R$ 698 mil, mesmo tendo uma performance bem superior no ano, sendo campeão do NE e 11º lugar na Série A, mas já com os portões fechados. Na receita geral, o Ceará ficou à frente no Clássico-Rei das finanças, com R$ 17,0 mi a mais (R$ 103 mi).

Sobre os resultados do tricolor, a queda da receita influenciou no investimento direcionado ao futebol profissional, com redução de R$ 69,3 mi para R$ 55,0 mi. De forma proporcional, num comparativo com a receita total, o percentual até subiu, de 57,5% (2019) para 63,9% (2020), mas isso mostra, na verdade, que o clube saiu do seu perfil administrativo mais conservador para tentar manter a competitividade – e a permanência na primeira divisão foi por um triz.

Vale lembrar que o demonstrativo contábil, exigido por lei, conta o ano corrente, de 1º de janeiro a 31 de dezembro. De forma excepcional, o Brasileirão acabou apenas no fim de fevereiro, com os dois primeiros meses de 2021 fazendo parte da “temporada futebolística” de 2020. Para o futebol, não para a contabilidade. Por isso, o Fortaleza – como os demais clubes – tem receitas de “2020” que vão entrar só no próximo balanço. Por sinal, o orçamento do leão para esta temporada foi revisado, sofrendo uma redução de R$ 19,1 milhões, ou -16,7%.

A projeção para 2021 caiu de R$ 113,7 mi para R$ 94,6 mi. Entre as reduções forçadas, ainda em consequência da pandemia, a exclusão da bilheteria, que antes estava em R$ 12,9 mi, completamente fora da realidade. Por outro lado, o leão adicionou R$ 13 milhões relativos ao último campeonato nacional, sendo R$ 6 mi de performance (o clube acabou em 16º, se mantendo na última rodada) e R$ 7 mi de direitos de transmissão. Em relação ao próximo saldo, a previsão de superávit de R$ 262.117 transformou-se numa previsão de déficit de R$ 14.695.526 – pois o futebol deverá consumir R$ 80 mi, a maior cifra do clube, possivelmente em resposta ao aperreio nos gramados em 2020. O balanço financeiro foi puxado em 2020 (com o 5º déficit em 7 anos) e tende a ser novamente em 2021. Vale uma atenção no Pici.

Passivo tricolor aumenta pela 6ª vez consecutiva
O saldo negativo de quase R$ 10 milhões no relatório publicado em 27/04 acabou impactando no passivo, como diz a própria auditoria (“trouxe um desconforto pelo aumento do passivo descoberto”). No Fortaleza, a soma dos passivos circulante, com pendências de curto prazo, e não circulante, com pendências acima de doze meses, chegou a R$ 57,8 milhões. É o 6º aumento seguido – não me parece normal. Antes da volta à primeira divisão, e o clube já vai para o terceiro ano seguido, este montante era de R$ 32,3 mi. Ressalvo que nem tudo é dívida. O resultado ruim conta, mas o aumento também vem de novos contratos com atletas, a partir do novo patamar alcançado. Como exemplo, a aquisição do atacante David, em janeiro de 2020. Custou R$ 5 milhões, sendo a maior compra da história do futebol cearense. Além disso, o clube firmou um contrato de três anos com o jogador, que tem um dos maiores salários do elenco. Ou seja, ainda tem mais 24 meses firmados – e, consequentemente, presentes no passivo. Por outro lado, os parcelamentos tributários e trabalhistas são controláveis, bem abaixo da média dos demais clubes de massa da região.

Abaixo, um comparativo com quatro frentes importantes na composição da receita no futebol profissional, presentes nos últimos quatro balanços do Fortaleza – e as respectivas séries.

Direitos de transmissão na TV
2017 (C) – R$ 669.915
2018 (B) – R$ 6.366.829 (+850,3%; +5,69 mi)
2019 (A) – R$ 31.110.382 (+388,6%; +24,74 mi)
2020 (A) – R$ 24.108.650 (-22,5%; -7,00 mi)

Quadro de sócios-torcedores
2017 (C) – R$ 5.770.297
2018 (B) – R$ 12.255.570 (+112,3%; +6,48 mi)
2019 (A) – R$ 18.614.682 (+51,8%; +6,35 mi)
2020 (A) – R$ 11.213.353 (-39,7%; -7,40 mi)

Renda nos jogos
2017 (C) – R$ 5.134.102
2018 (B) – R$ 9.114.655 (+77,5%; +3,98 mi)
2019 (A) – R$ 11.891.514 (+30,4%; +2,77 mi)
2020 (A) – R$ 2.027.631< (-82,9%; -9,86 mi)/em>

Patrocínio/Marketing
2017 (C) – R$ 1.411.996
2018 (B) – R$ 7.693.695 (+444,9%; +6,28 mi)
2019 (A) – R$ 7.517.773 (-2,2%; -0,17 mi)
2020 (A) – R$ 6.331.412 (-15,7%; -1,18 mi)

A seguir, o histórico de receitas do Fortaleza, com um salto de R$ 108 milhões entre 2014 e 2019. Em 2020, mesmo continuando na Série A, a receita bruta teve uma redução de R$ 34 milhões.

Faturamento anual do clube (receita total)
2014 (C) – R$ 12.386.495
2015 (C) – R$ 19.281.315 (+55,6%; +6,89 mi)
2016 (C) – R$ 23.383.609 (+21,2%; +4,10 mi)
2017 (C) – R$ 24.456.997 (+4,5%; +1,07 mi)
2018 (B) – R$ 51.621.897 (+111,0%; +27,16 mi)
2019 (A) – R$ 120.490.995 (+133,4%; +68,86 mi)
2020 (A) – R$ 86.069.940 (-28,5%; -34,42 mi)

Resultado do exercício (superávit/déficit)*
2014 (C): -1.920.459
2015 (C): -1.667.300
2016 (C): +325.844
2017 (C): -1.192.688
2018 (B): -1.503.071
2019 (A): +3.444.392
2020 (A): -9.787.635
* O saldo da subtração da receita líquida pela despesa anual

Evolução do passivo acumulado do clube (circulante + não circulante)
2014 (C) – R$ 16.396.649
2015 (C) – R$ 22.303.258 (+36,0%; +5,90 mi)
2016 (C) – R$ 22.360.449 (+0,2%; +0,05 mi)
2017 (C) – R$ 28.112.178 (+25,7%; +5,75 mi)
2018 (B) – R$ 32.335.928 (+15,0%; +4,22 mi)
2019 (A) – R$ 43.485.850 (+34,4%; +11,14 mi)
2020 (A) – R$ 57.885.088 (+33,1%; +14,39 mi)

Leia mais sobre o assunto
O relatório financeiro do Fortaleza sobre 2020, com auditoria independente da Accord


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