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Os sete têm contratos no Estadual, Nordestão e Brasileiro. No âmbito local, períodos distintos.

A alteração na lei brasileira sobre a negociação dos direitos de transmissão dos jogos, com o “direito de arena” passando a pertencer exclusivamente ao clube mandante, em vez dos dois times envolvidos no jogo, repercutiu bastante no futebol. E está longe de ser unanimidade, tanto entre especialistas em gestão esportiva enquanto entre os próprios presidentes dos grandes clubes. Neste post, trago a visão inicial dos presidentes dos sete principais clubes do Nordeste.

Enquanto os presidentes de Bahia, Ceará, Fortaleza, Náutico (em menor grau) e Vitória viram a Medida Provisória de nº 984 com bons olhos, os mandatários de Santa Cruz e Sport preferem aguardar os desdobramentos do ato assinado em 18 de junho pelo presidente Jair Bolsonaro.

Em relação às declarações, os presidentes baianos, Guilherme Bellintanti e Paulo Carneiro, utilizaram os seus perfis nas redes sociais para abordar o tema – no caso do dirigente tricolor, uma sequência de 14 tuitadas. Além dessas falas, adicionei as declarações de Edno Melo e Constantino Júnior em entrevistas concedidas a Yago Mendes e Camila Sousa, do Diario de Pernambuco (PE), de Milton Bivar em entrevista a Davi Saboya, do Jornal do Commercio (PE) e de Robinson de Castro e Marcelo Paz em entrevistas a Breno Rebouças, do O Povo (CE).

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Ato do governo federal dá ao clube mandante os direitos de transmissão dos jogos na TV

O último ano dos atuais contratos de TV
2020 – Cearense (R$ 1,6 milhão/ano)
2020 – Baiano (R$ 2,7 milhões/ano)
2020 – Série B (contrato anual, R$ 120 milhões)
2022 – Pernambucano (R$ 4 milhões/ano)
2022 – Série C (cerca de R$ 20 milhões/ano)
2022 – Copa do Nordeste (R$ 34 milhões/ano)
2022 – Copa do Brasil (cerca de R$ 300 milhões/ano)
2024 – Série A (cerca de R$ 2 bilhões/ano)

A seguir, as visões dos dirigentes. Depois, comente se concordou com alguma fala e sobre o que você achou da opinião do presidente do seu clube. Esse debate tende a ser longo.

Guilherme Bellintani, presidente do Bahia (no Twitter, em 19/06)
“Muita gente me perguntando porque estou tão animado com o novo modelo dos direitos de TV. Vou detalhar. O modelo atual é desigual, é horrível. Não foi capaz de promover a união dos 20 clubes. E nenhuma lei que obrigue a união plena seria aprovada no Brasil hoje, sejamos realistas. Sem a ideal união de 20 clubes, quem sabe um dia, a MP traz um modelo que estimula muito a formação de blocos parciais, consórcios de clubes etc. Pode ser um começo da cultura de união, que até então não estava fortalecida. Antes da MP, se dez clubes se unissem em bloco, poderiam vender 90 jogos do Brasileirão, do total de 380. Mesmo sendo 50% dos clubes, só detêm menos de 25% dos jogos. Os outros jogos desses clubes desaparecem do mercado, viram pó. Clube ganha menos e o torcedor é prejudicado. Com a MP, esses dez clubes passariam a vender 190 jogos, mais que dobrando a quantidade de jogos a serem comercializados.”

“O produto, portanto, valerá mais, e o torcedor é diretamente beneficiado com isso. Esse já seria o caso dos jogos entre Turner, com 8 clubes, e Globo, om 12 clubes, na TV Fechada. Uma quantidade enorme de jogos que não está com nenhuma das duas, mas poderão agora voltar ao mercado de TV Fechada. Os clubes da Turner passarão de 56 para 152 jogos. A Globo também ganha jogos. E na TV Aberta, quais as ameaças/oportunidades? Situação parecida. Se, por exemplo, Flamengo, Corinthians, Palmeiras, Vasco etc fecham com a Globo, a única saída para o Bahia na TV Aberta é fechar com a Globo. Porque se Bahia não tiver esses jogos a TV Aberta vale muito pouco. Com a MP, a TV Aberta do Bahia ganha mais força. Temos como vender nossos jogos contra Flamengo, Corinthians, Vasco e Palmeiras. Mais uma vez, a formação de blocos será importante. Bahia sozinho não terá muitos caminhos.”

“Agora o PPV: Bahia já chegou a receber R$ 20 milhões por ano, mas deve receber menos de R$ 10 milhões em 2020. É um produto em declínio. É uma forte tendência que clubes possam criar suas próprias plataformas de streaming. O valor pago ao Bahia pelo PPV é baixo o suficiente para que seja melhor termos a nossa própria transmissão, até mesmo fazendo consórcio com plataformas de outros clubes ou, quem sabe, uma plataforma única para dez, doze clubes. Se a união de 20 clubes permanece improvável, com a MP a união em blocos me parece cada vez mais forte. Não traz o sonho de 20 clubes unidos, mas traz um mundo possível. Se ela não é uma ‘solução final’, ela é uma boa transição.”

“Por que a união de todos é o ideal, mas isso não acontece no Brasil? Porque as TVs se acostumaram com a ideia de pagar mais para os principais clubes, e isso impede a união. Com a lei estimulando a união em blocos, o clube que achar que vai ganhar sozinho pode perder parte de seus jogos. Nos países europeus, essa concorrência é estimulada de forma diferente. Estimulam a disputa entre TVs, mas quem ganhar leva todos os jogos. No Brasil, a formação de blocos para negociação com emissoras diferentes pode ser o caminho até termos uma cultura real de união. A MP não provoca a união de todos os clubes, mas fortalece muito a união daqueles que já desejam isso. Talvez um grande bloco, formado por clubes com afinidades e senso de coletividade, seja o próximo passo do futebol brasileiro. Agora isso ficou mais factível.”

Robinson de Castro, presidente do Ceará (ao jornal O Povo, em 18/06)
“Vai empoderar os clubes, principalmente os que possuem grandes torcidas. E vai haver uma transformação no mercado, possibilidade de novos players (plataformas de transmissão), mudar o que está aí. No (campeonato) Cearense (de 2021), se eu sou o mandante e vou enfrentar o Fortaleza, posso vender (os direitos de transmissão) para alguém, não preciso de autorização. Se oito clubes venderem direitos juntos no Brasileiro, por exemplo, cada um faz 19 jogos como mandante, então são 152 jogos para transmitir. Quanto vale isso?”

Marcelo Paz, presidente do Fortaleza (ao jornal O Povo, em 18/06)
“(A MP) Dá protagonismo aos clubes e maior flexibilidade para negociar. Se alguém lá fora quiser comprar os direitos internacionais (do Brasileirão de 2020) para transmitir Fortaleza e Flamengo, por exemplo, eu posso vender, sem pedir ao adversário.”

Edno Melo, presidente do Náutico (ao jornal Diario de Pernambuco, em 18/06)
“Em primeiro momento, não vai fazer diferença nenhuma. Em relação ao Náutico, especificamente, e também à grande maioria dos clubes (da Série B), que tem contrato com a Globo até 2022, o contrato, inclusive, está para ser renovado agora, em 2021. Então, o benefício maior foi para aqueles clubes que não renovaram ainda seu contrato com a Rede Globo, como é o caso do Flamengo, que vai poder vender seus jogos como mandante para qualquer streaming ou emissora.”

“Com certeza os clubes vão ganhar em poder de negociação, claro. Mas, da mesma forma que vai existir isso, vão existir outros mecanismos, dentro dos contratos para moldar um pouco para esse tipo de situação. A questão contínua é se você tiver um contrato bem feito. Se tiver um contrato com a Globo, com o SBT, com a DAZN, com a Fox, seja com quem for, e esse contrato seja bem feito, vai garantir um pode de negociação bem maior.”

Constantino Júnior, presidente do Santa Cruz (ao jornal Diario de Pernambuco, em 18/06)
“Este modelo é algo que acontecia na Europa até a década passada. O que impressona foi a rapidez da tramitação. Por enquanto estamos acobertados, pois temos contratos de adesão em todas as competições que disputamos. Com os contratos vigentes, vamos aguardar os desdobramentos e conversar com pessoas especializadas em mídia para termos noção da repercussão. Temos contrato com a Globo até 2022 para o Campeonato Pernambucano e isso não terá mudanças.”

“Na Série C, assinamos um contrato de adesão com o DAZN, por isso não se pode vender. Quando chegarmos à Série A é outra situação, pois os contratos são negociados ano a ano. Além disso, temos que mensurar a questão da venda dos jogos. Para times grandes é mais fácil, já para as equipes de menor porte não é tanto. O que vamos fazer agora é aguardar.”

Milton Bivar, presidente do Sport (ao Jornal do Commercio, em 20/06)
“Não existe problema. É uma coisa nova. Não tem como fazer uma comparação. É precipitação falar algo neste momento. Preciso estudar mais, aguardar, avaliar essa questão para poder opinar de fato. Até porque essa lei não impede que esses atuais contratos sejam renovados.”

Paulo Carneiro, presidente do Vitória (no Twitter, em 19/06)
“O atual modelo de Direito de Arena é uma deformação, pois não pertence a ninguém e favorece a empresa monopolista(Globo), que com acordos com poucos clubes desequilibram economicamente a distribuição de direitos. O direito do mandante garante em última análise a venda de pelo menos 19 jogos. A negociação coletiva que complementa o direito do mandante, favorece todos os clubes e maximiza o valor dos direitos, na medida que permite fatiar os direitos em “janelas de jogos” que atraia players de todos perfis. Dos tradicionais aos digitais.”

“A MP precisa ser emendada com negociação coletiva para potencializar e flexibilizar a venda dos direitos, aumentando a concorrência possibilitando o empacotamento dos direitos em janelas dos jogos. A NFL já faz isso as quintas feiras com resultados milionárias. A Série B unida através da sua associação identifica agentes políticos para decidir, segunda-feira (22/06), entrar com emenda para que seja inserida a negociação coletiva na MP.”

Podcast
Abaixo, o link com o debate do Podcast 45 Minutos sobre o tema. Participei da gravação com Cascio Cardoso, Fred Figueiroa, João de Andrade e Lucas Liausu. A gravação teve participações especiais dos consultores em gestão Cesar Grafietti e Alexandre Rangel, do jornalista Mauro Cézar Pereira e do presidente do Bahia, Guillherme Bellintani. Ao todo, 2 horas de conteúdo.


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