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Na era das peneiras internacionais, Olinda registrou um caso curioso em 10 de dezembro de 2020.

A globalização do futebol criou novas relações na modalidade, como a identificação do público brasileiro com times do exterior, da simpatia à torcida de fato, além de massificar a exportação de jogadores para novos mercados. Neste ponto, a fonte no país parece inesgotável, com clubes europeus ensaiando o garimpo de maneira totalmente independente. Em vez de gastar milhões de euros por jogadores com poucas partidas pelo profissional (ou mesmo nenhuma) em camisas de peso, como Flamengo e Palmeiras, o roteiro pode ser escrito por peneiras específicas.

No Brasil, isso já vem ocorrendo silenciosamente numa escala cada vez maior. É a ampliação de um movimento interno. Como exemplo, o Athletico-PR, o atual campeão da Sula, que tem quase 100 escolinhas fora do Paraná, sendo 11 no Nordeste. Em 2019 o Santa Cruz chegou a ter academias de futebol em Alagoas e Sergipe, num trabalho travado por falta de recursos.

E justamente pela maior capacidade financeira, a turma do Velho Mundo vem arriscando ações mais periféricas. Num primeiro momento, no Recife, vieram clubes renomados, como Milan e PSG. Os italianos chegaram a realizar uma edição do “Milan Junior Camp” num resort no litoral sul. O evento, em 2010, contou com jovens de 7 a 15 anos – e até então apenas São Paulo vinha recebendo. Ali, foi mais voltado à “imagem” do clube. Mais marketing que bola.

Evolução estrangeira de “camp” a “peneira”

Mais recentemente, o Paris Saint-Germain deu um novo passo, criando uma série de academias no país. Com 15 unidades, uma funciona no bairro do Ipsep, montada após um evento em 2018. Agora, a busca por jovens valores partiu para o terceiro estágio, com clubes de porte mediano iniciando trabalhos do outro lado do Oceano Atlântico. Ou não chama a atenção uma “peneira” promovida pelo Braga de Portugal em Olinda? O evento internacional no fim de 2020 ocorreu no Estádio Grito da República, em Rio Doce. Com apoio da prefeitura, foi o primeiro evento firmado com o clube da cidade de mesmo nome e 193 mil moradores.

Integrante da 1ª divisão lusitana, o Sporting Clube de Braga foi fundado em 1921 e já venceu a Copa de Portugal em três oportunidades (1966, 2016 e 2021), além de ter sido vice do campeonato nacional em 2010 e da Liga Europa em 2011. É competitivo internamente, mas bem abaixo do trio de ferro de lá, com Benfica, Porto e Sporting de Lisboa. Em sua pioneira passagem em solo olindense, o Braga enviou dois profissionais da base, que observaram 150 jovens de Olinda, Recife e João Pessoa. O objetivo era levar os aprovados diretamente para Portugal, com o primeiro contrato sendo assinado só após o desembarque do voo da TAP.

Saída sem trabalho de base no Recife

Ou seja, jovens sem histórico de passagens por Sport, Santa Cruz, Náutico, Retrô ou qualquer outro clube com trabalho regular nas categorias inferiores. Logo, uma saída sem gerar qualquer receita aos clubes locais – à parte do ganho pessoal do atleta, essencial obviamente. Em 2017, o mesmo Braga pagou R$ 2,8 milhões ao Náutico pelo atacante Erick. Não surpreende a ideia de achar um novo “Erick” por um valor muito menor em eventos pontuais.

Com a supracitada globalização, cenas do tipo tendem a impactar cada vez menos. Por isso, a necessidade de uma reorganização sobre o trabalho de base no futebol pernambucano, a partir de olheiros, peneiras e condições de treino, tanto na parte estrutural quanto na tática. Inevitável, a concorrência é cada vez maior e a tendência de investimento (e convencimento) externo deve ampliar mais a mira in loco por talentos, que seguem nascendo aqui…

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