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A festa de Haaland e o deserto na muralha amarela do Borussia. Fotos: Bundesliga/Twitter.

O Campeonato Alemão foi o primeiro grande torneio de futebol a voltar durante esta pandemia, cujos números seguem em expansão e sem vacina ao Covid 19. Com 18 clubes, a edição 2019/2020 da Bundesliga foi paralisada na 25ª rodada, de um total de 34. Na retomada, seis jogos programados no sábado, sob rígido protocolo, com até 300 pessoas, todas a trabalho, no estádio.

Valeu tanto na chegada das delegações, com mais veículos à disposição, possibilitando uma maior distância interno, quanto na entrada separada das equipes no campo e no desenvolvimento do jogo. Neste caso, nada de abraços nas comemorações (ocorreram alguns) ou cuspes no gramado (difícil evitar nos 90 minutos). No banco de reservas, todos os presentes obrigados a utilizar máscaras de proteção. Não só para orientar o público, mas pela própria saúde.

Tudo isso sendo acompanhado pelo poder público, que pode determinar uma nova paralisação caso surjam novos contaminados entre os personagens envolvidos no jogo, com testagens recorrentes. Assim, a expectativa em relação à eficiência alemã tende a servir como parâmetro para outros locais. Em relação ao possível sucesso, pode ser um equívoco. Não pelo sucesso, obviamente, pois fica aqui a torcida por isso, mas sim pela falsa equivalência. Deixo um spoiler aqui: a Bundesliga será utilizada como parâmetro direto no Brasil, quiçá nos Estaduais, cuja volta parece cada vez mais na contramão do bom senso.

Listo algumas justificativas para esta visão.

1) A situação na Alemanha, em relação à pandemia, é bem diferente do Brasil. Entre os países mais populosos da Europa, foi o primeiro a baixar a curva de contaminados, reduzindo a proliferação do Coronavírus. Após um início duro, a posição do governo de Angela Merkel sobre a necessidade de distanciamento social, com investimentos federais para manter a população desta forma, além da alta taxa de adesão à medida, achatou o curva drasticamente. De 6 mil, no pico em março, para cerca de 900 confirmações diárias – ao todo, 8 mil mortos. Sem contar que é o 3º país com mais testes, 2,7 milhões. Já no Brasil, o governo de Jair Bolsonaro mantém a visão “isolamento vertical”, focado nos grupos de risco, numa tentativa de reativar a economia. O contraste no discurso com os governos estaduais somada à polarização política mantêm parte da população fora de sintonia sobre qualquer medida seguir. E as confirmações locais já passam de 15 mil por dia, com a curva em rápida e perigosa ascensão – ao todo, quase 15 mil óbitos no país. Fora a visível subnotificação de doenças respiratórias. Abaixo, o didático gráfico do Google sobre as duas situações.

2) O segundo ponto é uma consequência direta do primeiro, com a situação atrelada à estrutura disponível. As distâncias entre as cidades envolvidas na liga alemã são bem menores, facilitando o traslado das equipes (um dos principais riscos sobre a retomada). Já no Brasil, com dimensões continentais, a Série A de 2020 terá hiatos de até 3.216 km, que é a linha reta entre Fortaleza e Porto Alegre, ambas as cidades com dois clubes participantes. O excesso de voos, considerando a manutenção do modelo atual (38 rodadas, com cada clube em seu campo), deixaria a competição em alerta máximo do início ao fim. Na Alemanha, antes da volta, foram realizados cerca de 1,7 mil testes nos 36 clubes das duas principais divisões, com 10 casos positivos, segundo o site Kicker. Aqui, o Flamengo, o atual campeão brasileiro, fez 293 testes em jogadores, familiares e integrantes da comissão técnica, com 38 infectados, sendo 3 atletas. E estamos falando do clube de maior receita do Brasil, beirando R$ 1 bilhão por ano. Comparando os dois cenários, 1 infectado a cada 7,7 testes no Fla e 1 infectado a cada 170 testes na Bundesliga. Haja diferença. Haja risco.

3) Os testes feitos pelo Flamengo ocorreram num cenário de capacidade de investimento. Infelizmente, não é o padrão. No âmbito estadual, me referindo a Pernambuco mesmo, a falta de recursos para cumprir o protocolo pode ser um problema, sobretudo nos times do interior. Tanto em itens básicos, como álcool-gel e máscaras, quanto na necessidade de mais ônibus e quartos na concentração (por sinal, como ficariam as hospedagens, uma vez que os hotéis seguem fechados?). Mesmo com ajudas pontuais, caso da FPF, que bancou 100 litros de álcool-geral e desinfecções nos CTs, o trabalho precisaria ser contínuo – e o caixa pode não permitir isso. Hoje, em muitos clubes, já faltam recursos para salários. A volta dos jogos, o que em alguns casos significaria a volta dos recursos da TV, tem uma enorme contrapartida, que ainda não parece calculada pelas direções.

A receita alternativa diante das arquibancadas vazias
O campeonato alemão é a liga nacional de futebol com a maior média de público do mundo. A edição 2018/2019 registrou 43.449 torcedores por jogo. E o Borussia Dortmund é o clube com o maior índice do planeta. No último torneio foram 80.820 pessoas a cada apresentação no Signal Iduna Park. Das 10 maiores médias, 4 foram estabelecidas na Bundesliga, segundo o site World Footbal – com Bayern (75 mil), Schalke (60 mil) e Stuttgart (54 mil) no top ten. Na volta, a goleada do Borussia sobre o Schalke, por 4 x 0, não foi vista por torcedores in loco, mas na tevê, provavelmente, a audiência foi considerável (incluindo ESPN e Fox Sports, enfim com eventos ao vivo no Brasil). A volta aos jogos com o cenário completamente vazio tende a ser uma característica do “Novo Normal”, algo que só mudará com a aplicação de uma futura vacina. Na Europa, as receitas dos principais clubes já dependem cada vez menos dos “jogos” de maneira específica.

Segundo a consultoria Deloitte, o Bayern foi o 4º clube de maior faturamento, só atrás de Real Madrid, Barcelona e Manchester United. Foram 628 milhões de euros em 2018, com 17% através da bilheteria. Já a TV representou 28%, fatia que tende a aumentar agora, devido à baixa na bilheteria – e pelo aumento da importância da própria TV, o único “acesso” possível aos jogos. Hoje, a maior parte da receita, 55%, vem de produtos licenciados e ações de marketing. De fato, parte disso vem atrelado aos jogos, algo impossível no momento, com os portões fechados. O novo direcionamento desta receita, cada vez mais online, deve ser o papel dos clubes, já conscientes do novo sarrafo financeiro. No Brasil, a maioria ainda depende da bilheteria. Sem esta solução, restam as ações de engajamento por parte dos clubes – e os principais do Nordeste vem se esforçando neste ponto.

O que você achou da volta do futebol alemão? Qual parâmetro seria aplicado ao Brasil? Comente!

Abaixo, uma imagem do empate entre Dusseldorf e Paderborn, com os reservas de máscaras.

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