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O total de receitas dos clubes levantados pelo estudo. Em 2019, o recorde.

Uma equipe do Banco Itaú BBA produziu o estudo “Análise Econômico-Financeira dos Clubes do Futebol Brasileiro – 2019”, a nova versão do raio x atualizado há 11 anos. O relatório apresenta 24 times, incluindo cinco nordestinos, após três meses examinando os relatórios dos clubes. Da região estão os quatro representantes na Série A desta temporada (Bahia, Ceará, Fortaleza e Sport) e o Vitória, ainda na Série B – pela segunda vez seguida o estudo não cita Náutico e Santa, desta vez até de forma justificada, devido aos balanços rasos apresentados pelos clubes.

O faturamento absoluto de 1º de janeiro a 31 de dezembro de 2019, considerando todos os clubes observados, foi de R$ 5,8 bilhões, num aumento de 7,9% em relação ao ano anterior. Montante dividido em cotas de tevê (40,9%), transações de atletas (22,6%), bilheteria e sócios (14,5%), publicidade e patrocínio (11,4%), entre outras fontes.

Todos os números foram colhidos nos balanços oficiais dos clubes, divulgados este ano. O prazo original era até 30 de abril, mas, devido à pandemia, alguns clubes extrapolaram o prazo – ainda foi possível inserir alguns atrasados, mas outros não, casos de Coritiba e Chapecoense. Além de “traduzir” as cifras, até porque os documentos ainda não seguem um padrão de informação, os especialistas deram o aval sobre a situação de cada um, projetando cenários em médio e longo prazo. O texto aponta o bom momento de três nordestinos, Bahia, Ceará e Fortaleza, que de fato vêm apresentando uma regularidade no assunto – já a situação do Sport está na “cota do milagre”. Eis o trecho:

“O futebol brasileiro em 2019 viu surgir forças capazes de rivalizar com nomes outrora vencedores. Agora é possível ver o Athletico, o Bahia, o Fortaleza, Ceará e Goiás com possibilidades reais de tornarem a Série A seu habitat natural. A força da gestão ocupa espaço de clubes que já não suportam o peso da dos erros do passado – como Vasco, Botafogo, Fluminense, Cruzeiro – nem da má gestão do presente – casos de Corinthians, São Paulo, Internacional, Atlético Mineiro, Santos – que a cada ano cavam um pouco mais a vala que se forma no círculo vicioso dos gastos excessivos, das dívidas que se acumulam e não são pagas. Dívidas que são efeito das más gestões e não causa delas”.

Clubes presentes no estudo
América (MG), Athletico (PR), Atlético (GO), Atlético (MG), Bahia (BA), Botafogo (RJ), Ceará (CE), Corinthians (SP), Cruzeiro (MG), Flamengo (RJ), Fluminense (RJ), Fortaleza (CE), Goiás (GO), Grêmio (RS), Internacional (RS), Paraná (PR), Palmeiras (SP), Ponte Preta (SP), Red Bull Bragantino (SP), Santos (SP), São Paulo (SP), Sport (PE), Vasco (RJ) e Vitória (BA)

A seguir, os principais pontos da análise da equipe de especialistas do Itaú sobre os nordestinos presentes, tanto em textos quanto em gráficos. Assim que possível, colocarei o link com a íntegra do estudo no post.

Bahia (da página 125 a 133)
Custo do futebol em 2019: R$ 82 milhões (46,5% do total, de R$ 176 mi)

O que deu certo
– Crescimento de receitas
– Endividamento de curto prazo compatível com as receitas

O que não funcionou
– Custos cresceram lastreados na venda de atletas
– Investimentos agressivos

“O passo que a perna pode dar”

“O Bahia vem fazendo um grande trabalho de recuperação financeira e estrutural. Os resultados são positivos mas ainda inconsistentes. Muito em função da necessidade de acelerar investimentos e gastos para se tornar competitivo. O problema disso é que o clube se torna dependente dos resultados para fechar suas contas. Melhor desempenho significa mais dinheiro e com isso é possível manter os gastos elevados. Em 2019 foi possível fazer isso, mas dependendo da venda de atletas e de luvas de TV para fechar suas contas. Entra 2020 e o clube é pega pela pandemia. Com redução de Bilheteria e chance menor de vender atletas, a tendência é sofrer ao longo do ano. Operar sem sobras traz riscos. Tanto é que a tendência é de que em 2020 o clube sofra bastante e precisará de muito jogo de cintura para manter a casa em ordem. Alguns processos requerem paciência e tempo. Num clube de futebol este conceito contrasta com a necessidade – ou o desejo – de ser relevante. O Bahia faz a lição de casa, cria governança, desenvolve transparência, mas corre riscos que podem fazer o clube andar duas casas para trás. A pergunta que fica é se é necessário agir assim ou se é possível aguardar um pouco, consolidar as estruturas e depois iniciar um processos mais firme de crescimento e competitividade. O tempo dirá. O Bahia tem tudo para ser um dos clubes de destaque no futebol brasileiro nos próximos anos, se consolidando como força. Precisa paciência.”

A análise do blog
Balanço do Bahia em 2019 aponta receita recorde no Nordeste e passivo maior

Ceará (da página 143 a 151)
Custo do futebol em 2019: R$ 32 milhões (32,6% do total, de R$ 98 mi)

O que deu certo
– Crescimento de receitas
– Diversificação das receitas
– Manutenção das dívidas em montantes baixos

O que não funcionou
– Custo lastreado em venda de atletas

“No rumo certo”

“A vida de um clube regional nunca é fácil. Luta com receitas limitadas, maior dependência da TV, e com orçamentos mais modestos toda competição é um desafio na disputa contra clubes de maior envergadura. O Ceará exemplifica bem esta situação. Positivamente consegue se manter na Série A mesmo com orçamento limitado e dificuldades, mas positivamente de maneira financeiramente equilibrada. Números bons, baixo endividamento, investimentos dentro de suas possibilidades. Há ainda um aspecto importante que é o envolvimento do torcedor, que responde por uma bom pedaço das receitas (23%), a segunda maior do clube. Claro que há desafios, como o de conseguir receitas recorrentes mais fortes e gastar mirando nelas. Isto tende a deixar o clube mais robusto e evita situações de desequilíbrios momentâneos que se perpetuam. É preciso continuar com os pés-no-chão, jogando junto com o torcedor e buscando soluções que permitam maior eficiência no uso do dinheiro. Ao ver equipes de presença nacional em dificuldades, surge uma enorme oportunidade para que o clube se solidifique e permaneça de forma sustentável na elite do futebol brasileiro.”

A análise do blog
Balanço do Ceará em 2019 registra o 5º superávit seguido e receita recorde

Fortaleza (da página 192 a 200)
Custo do futebol em 2019: R$ 51 milhões (42,5% do total, de R$ 120 mi)

O que deu certo
– Crescimento de receitas
– Manutenção na Série A
– Dívidas baixas

O que não funcionou
– Funcionou, mas é ponto de atenção: precisa trabalhar com mais folga de geração de caixa

“De grão em grão”

“O Fortaleza apresenta situação equilibrada. Trata-se de um clube que tem poucas dívidas, equacionadas, que tem boa diversidade de receitas e depende menos que a média da TV. Mas vive de maneira justa, com pouca geração de caixa, e isso deixa menos margem na hora de enfrentar problemas. A intenção é clara, pois o clube precisa investir no máximo que seus limites permitem para ser capaz de competir com outros que fazem mais receitas. Mas há que ter cuidado para não deixar essa necessidade ultrapassar os limites. Em 2019 o resultado esportivo foi bom, o que mostra que a estratégia funcionou. Mas é preciso estar atento. A tendência é de ocupar espaço que antes era dominado por clubes de maior presença nacional. A gestão equilibrada permite pensar nisso. Em 2020 a situação apresenta um desafio que é conseguir se financiar de maneira eficiente. Hoje o clube depende de mútuos de sócios, mas o ideal é buscar autonomia financeira para se financiar com prazos longos e estrutura estável, criando reconhecimento no mercado de sua gestão. O caminho está sendo construído, de forma segura. Esperamos que os passos continuem a serem dados de acordo com o tamanho das pernas.”

A análise do blog
Balanço do Fortaleza em 2019 registra a maior receita da história do clube

Sport (da página 282 a 290)
Custo do futebol em 2019: R$ 18 milhões (46,1% do total, de R$ 39 mi)

O que deu certo
– Retorno à Série A
– Corte de custos

O que não funcionou
– Informações insuficientes
– Dívidas elevadas

“Talvez um milagre ajude”

“O primeiro ponto relevante é que o Sport não ajuda nas suas análises porque não oferece demonstrações financeiras com os detalhamentos ideais. Com base no que temos é possível ver um clube em extrema dificuldade, com receitas limitadas, dívidas elevadas e um risco enorme de ficar entre a cruz e a espada: ou gasta (sem poder) para se manter na Série A ou retorna à Série B e mantém as dificuldades. Aliás, dificuldades serão mantidas esteja onde estiver o Sport em 2021, pois o clube entrou num processo de endividamento tão alto e concentrado no curto prazo que fica difícil o clube se recuperar no curto prazo. A realidade do Sport é bastante complicada e demandará mais que boa gestão para se recuperar.”

A análise do blog
Balanço do Sport em 2019 aponta a menor receita na década e 7º déficit seguido

Vitória (da página 300 a 308)
Custo do futebol em 2019: R$ 30 milhões (65,2% do total, de R$ 46 mi)

O que de certo
– Investimentos compatíveis com a condição do clube

O que não funcionou
– Receitas em queda
– Custos acima das receitas
– Dívidas cresceram
– Alavancagem permanece elevada

“Paciência e pés-no-chão”

“O Vitória é daqueles casos de clubes que enquanto se mantém na série A se sustentam à base das receitas de TV, que favorecem vendas de atletas. O problema é quando caem, perdem as receitas mas permanecem com inúmeros problemas de dívidas, que a nova realidade não comporta. Mesmo com ajustes, menores que a necessidade demanda, o Vitória foi incapaz de alcançar o equilíbrio. É preciso um esforço maior, uma gestão mais eficiente e com os pés-no-chão, e que se ampare nas categorias de base como forma de reverter o cenário difícil. É um ciclo vicioso que precisa ser rompido, mesmo que leve algum tempo até que o clube reencontre o equilíbrio e a capacidade de ser competitivo.”

A análise do blog
Balanço do Vitória em 2019 tem queda de R$ 34 milhões na receita e passivo recalculado


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